Grupo de leitura: ler o texto, ler o outro, ler o mundo
- Tanu Biswas
- Apr 14
- 4 min read
Por Daniele Bruno Santana, anfitriã do grupo de leitura em português sobre criancismo
Que sorte poder organizar um espaço de encontro. Encontros transcontinentais em que singularidades puderam estar juntas e conectadas por uma mesma tarefa. O grupo de leitura, em seu primeiro semestre foi assim - pessoas em diferentes territórios, atravessadas por experiências, formações e contextos diversos, reunidas pelo desejo comum de dialogar sobre adultocentrismo e criancismo. A hora e meia de cada sessão nos possibilitou, a partir de textos disparadores, o encontro, choque e ampliação de ideias, amparadas pela escuta e pela troca.
No primeiro encontro, partimos do texto “O lugar dos bebês no confronto com o adultocentrismo: possibilidades a partir da cartografia e da filosofia da diferença”, de Chaves e Vicenzi. Iniciar pelo bebê revelou-se um gesto potente de deslocamento. Sendo talvez considerado o “menos-adulto” de todos, o bebê e suas formas de estar no mundo e se comunicar com ele nos levaram a refletir sobre outros lugares sociais marcados como “não-ser”.
A organização das existências para a sociedade, a partir de um parâmetro do adulto-padrão e que, paradoxalmente, parece inexistente, trouxe reflexões acerca do lugar dos idosos enquanto “já não” em relação ao “ainda não” que bebês e crianças ocupam. Levantou, também, a importância da articulação do adultocentrismo com o capacitismo, para termos a visão ampla dos corpos que são posicionados à margem com suas experiências, saberes e formas de estar no mundo.
A cartografia, enquanto perspectiva ética e metodológica, surge como possibilidade ativa materializada no ato de cartografar. Exigindo de quem cartografa outras formas de leitura que se ocupe de gestos, respirações, ritmos e presenças, e reconhecendo que a criança pode ser a própria cartógrafa de sua experiência, esta surge como possibilidade de deslocarmos a centralidade e alterarmos a lente pela qual lemos o mundo.
O segundo encontro teve como texto disparador o artigo “Colonialidade da educação infantil: análise crítica das práticas pedagógicas em uma instituição em contexto periférico”, de Otávio Henrique Ferreira da Silva. A discussão foi atravessada de maneira intensa pelo olhar da psicologia e da saúde mental, estendendo as contribuições para além da infância, mas compreendendo a interconexão de todas as existências.
Compreendemos que olhar para a criança ou para o adulto no ambiente escolar não são perspectivas opostas, mas complementares ao aceitarmos sua interdependência. Assim como as crianças, educadoras também estão inseridas em estruturas coloniais, burocráticas e hierárquicas que produzem adoecimento e frustração. Este reconhecimento, por sua vez, não retira a responsabilidade ética da educadora, mas amplia as possibilidades de pensarmos o espaço-escola por meio de uma lente criancista.
O debruçamento sobre a saúde mental nos levou a aspectos da colonialidade presente nos modelos diagnósticos em saúde mental, como o poder discursivo de manuais como o DSM e como o sofrimento psíquico, especialmente o das crianças. Frequentemente interpretado fora de seu contexto social, cultural e político, o modelo diagnóstico acaba atuando como forma de normatização e controle, em oposição ao cuidado. Cuidado este que foi compreendido não enquanto paternalismo e opressão característicos de uma estrutura adultocêntrica, mas como a ressituação da criança enquanto sujeito, e não como “outro” do adulto, apontando à necessidade de articulação com as perspectivas da ética do cuidado.
Um cuidado que pode, então, ser compreendido como aquele do qual todos temos demandas específicas e que por vezes se espera o seu silenciamento para podermos performar o papel de “adultos-padrão”.
Discutimos a distinção entre as práticas de suposta agência e protagonismo infantil que se sustentam em momentos pontuais e performáticos e aquelas que verdadeiramente constroem espaços de estabilidade, reconhecimento e segurança para que as crianças possam exercê-las. Evitando as “bolhas democráticas” isoladas do cotidiano, pensamos possibilidades estruturais de protagonismo infantil.
Ao longo dos encontros, com verdadeira disposição de construção de conhecimento, pudemos articular olhares que pareciam estar em pontos distintos e perceber seus entrelaçamentos em um mesmo tecido. Sempre com abertura para participações e compartilhamento das reflexões que o texto trouxe, o lugar de organização foi muito mais uma possibilidade de chamar à conversa e estar, também, pronta para não haver uma rota traçada a ser seguida. Tratou-se do lugar de estar disposta a ler e compreender quem chegou e como o texto reverberou em seus conhecimentos e experiências, percebendo como cada contribuição estava em diálogo com os conceitos centrais de criancismo e adultocentrismo. Essa diversidade de olhares permitiu que os textos fossem verdadeiramente disparadores para aprofundamento e expansão dos temas centrais.
Por vezes, as perguntas pareciam mais volumosas do que as respostas, e acredito que tenha sido um dos tantos ganhos do processo. Elas implicam que há e haverá movimento, interno e externo, na exploração de reflexões, trocas, práticas e modos de estar em relação.
É no encontro e em todos os encontros que, desde que estejamos dispostos à leitura e ao diálogo genuínos, inclusive daqueles que, por tanto tempo, vêm sendo silenciados, que podemos começar a construir um mundo mais criancista, em que a interdependência enquanto condição humana ajude a desfazer hierarquias naturalizadas e a aprendizagem seja constante.
Assim, seguiremos para mais um ano de encontros, leituras, imaginações e perguntas.




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